Mas isso é tão fundo...
Eu acabara de sair do colégio no Novo Juazeiro, perto da fábrica de chinelas, meu pai veio me buscar.
— então quer dizer que você brigou na escola?
— sim, pai...
Eu peguei uma cadeira e a quebrei nas costas do Nelson, o menino mais encrenqueiro que pagava de valentão de filme americano, por ter cuspido no meu lanche na hora da merenda.
— mas rapaz... Já é a segunda vez que tu é expulso de escola...
— mas, pai, o Nelson cuspiu na minha comida, era pra eu deixar isso passar?
Pai parou por um momento, olhando pra frente, acho que estava pensando no que diria para mim, até que voltou a olhar para mim, sorriu e disse:
— não filho, aquele moleque nojento mereceu, ele com certeza não recebeu educação em casa, mas você tem que maneirar da próxima vez, diga ao diretor da escola.
— eu sei, mas quando a gente fala é a mesma coisa que nada, e o bullying só piora.
— mesmo assim tente, só se não der certo do jeito fácil, aí você faz do jeito difícil, pra evitar de ser expulso demais das escolas.
— tá bom, pai.
Eu disse e não falamos mais daqui em diante, nós prosseguimos nossa caminhada até em casa; ou melhor, pai estava caminhando, eu estava rodando no meu skate verde do cabo Flippy na calçada, aquelas ruas metalizadas e brilhantes sempre me maravilhavam pelo brilho delas, e também me danava tentando descobrir porque aquele metal não ficava quente do dia inteiro no sol, provavelmente houvesse um sistema de resfriamento por baixo de todo aquele metal, e ele apenas coletasse energia solar, ou não fosse metal.
Toda aquela cidade tornara-se igual àquelas que eu via nos filmes de ficção científica, em específico àquele episódio de Bob Esponja, que ele limpou tanto, tanto a casa dele que ela ficou tinindo (literalmente).
Até que eu percebi que andava sozinho, pai não estava mais comigo, ele desaparecera repentinamente, sem dizer nada.
— oxe, cadê pai? Será que ele foi pra casa sem me dizer?
Parei um momento e averiguei ao meu redor, cada árvore metalizada, arbusto, esquina, ruela... Nada.
— hum... Que seja, então eu vou pra casa sozinho.
E prossegui calmamente o meu caminho, dando leves impulsos no meu skate.
Notei que já saíra do Novo Juazeiro e cheguei em um lugar diferente que eu não reconhecia desde que fazia caminhadas por acolá na minha infância mais mãe, parecia um cenário de Counter Strike, todo beje, paredes pichadas, escadas e corrimões metálicos escuros, com leves oxidações e ferrugem, também pichados, mas acho que devido à ação do sol, já não se destacavam mais.
Aquele lugar era nostalgicamente vazio, por onde eu olhava não via uma alma viva, um único cachorro, gato ou passarinho por perto, era só eu e o eco da minha respiração tilintando pelos arredores acústicos daquele lugar arredondado e um tanto estreito.
— e agora, pra onde eu vou?
Me perguntava, olhando para os lados, até que ouvi passos e vozes se aproximando gradativamente do lugar, então eu pulei de cima daquele lugar alto, me escondendo embaixo, eu não sei porque tive esse impulso de me esconder.
Me esgueirei, observando as pessoas que vieram subindo as escadas, eram jovens skatistas como eu, eles conversavam alegremente.
Então eu decidi seguir reto pelo caminho que vi lá de cima, que dava para frente.
Esse caminho me levou ao parque São Geraldo, que estava igualzinho à como era na minha infância, exceto pela pista de skate que eu via que estava no antigo campinho de futebol carcomido, pichado e com os arames rasgados de tantas bolas, as traves amassadas e a pintura do chão de concreto borrada, cheia de rachaduras.
Eu me aproximei lentamente.
Quando cheguei perto eu pude ver que a pista de Skate era uma cratera funda cheia de água, parecia um rio, mas os skatistas subiam e desciam sem problemas, a água não parecia dificultar o esporte deles, que iam e vinham na mesma velocidade, com o mesmo impulso, acho que as leis da física não se aplicavam àquele lugar.
Até que um skatista que subiu parou por um instante na borda, olhando para mim, ele me convidou a se juntar à eles:
— aí, cara, vem brincar com a gente, você parece tão triste!
— foi mal, mano, mas é que... Essa fundura tá me dando náuseas, e... Eu tenho que voltar para casa agora, antes que minha mãe fique preocupada!
— aah, entendi, pode ir, mas a gente sempre estará aqui, esperando você, até!
— até!
Recusei educadamente e segui o meu rumo, indo para cima, depois do terreno baldio (que ainda se conservara o mesmo, baldio e cheio de folhas caídas na calçada do lado de fora e de dentro), olhei o semáforo de trânsito no alto, que estava verde, mas as ruas estavam vazias, sem carros e motos, nem pedestres, então segui pelo caminho que ia no tempo de escola, à pé, depois da Baixa do Faroeste (antigo lugar onde se realizavam vaquejadas, hoje demolido, mas mantiveram as cercas de madeira, porém o lugar agora seria um mini condomínio).
Fim.
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