A paz

A Paz



Aguardo meu check-up sentado na cadeira metálica fria na recepção do hospital, um ventilador no teto chia a cada volta, oscila entre veloz e lento, solta faíscas de quando em quando, à minha esquerda uma mulher amamenta seu bebê, ao lado dela uma garota desliza o dedo com uma longa unha postiça rosa com adesivos de Hello Kitty sob a tela de seu Xiaomi tijolão, à minha direita um homem gordo e careca de barba grisalha que parecia o Homer Simpson ronca, de boca aberta e babando.

Tive sorte, dessa vez a fila é pequena, são exatas 23:59 da noite, daqui vejo crianças fantasiadas lá fora, subindo e descendo a rua, de casa em casa e estendendo suas abóboras de plástico e enchendo-as de doces.

Quem dera eu estivesse ali, mas mãe diz que não posso por sermos católicos, e que aquele não era dia das bruxas, mas de todos os santos, nós celebramos os vivos, não os mortos.

É tão chato.

O ventilador continua rangendo, até que ele pára de vez e todo o lugar se apaga, um breu tumular nos oprime, o bebê da moça chora e a mãe canta para ele se acalmar.

As luzes acendem.

A voz do televisor plano acima da balconista da recepção diz para ficarmos calmos pois foi apenas um apagão curto, mas que a consulta demoraria mais.

Cansei de ficar sentado ali, levanto da cadeira e adentro um corredor escuro, a única iluminação eram as luzes das janelas, as sombras das grades no chão e nas paredes, um silêncio sepulcral, quebrado vez por outra pelas solas do meu tênis que fazia o mesmo barulho que o Cell andando.

Observo pela janela uma aglomeração na praça do conjunto, carros de som estrondando, daqui ouvia a música ("Cabeça de Abóbora", da banda Gangue Morcego, um remix mais eletrônico e ritmado, mas que mantinha o tom punk e gótico da música), crianças e alguns jovens e adultos fantasiados, uma fantasia mais ridícula que a outra, só não ri porque estava apático e sonolento.

Subo uma escada, um aroma doce enjoativo entra nas minhas narinas e me enche de curiosidade, a cada andar o hospital se tornava mais e mais escuro, silencioso, a luz dos postes não chegavam até os outros andares de cima, tive que me guiar tateando no escuro.

Cheguei num andar mais iluminado que os outros, uma porta aberta de onde vinha o cheiro adocicado, e uma fumaça amarela como a nuvem voadora do Goku saía da sala, caminhei até lá e vi dentro da sala uma fantástica loja de doces, cada doce parecia saído de outra dimensão, em cada parede luminárias de vidro com o que pareciam ser vagalumes.

— Venha, entre, meu bom rapaz! Pode pegar o que você quiser!

Disse uma senhorinha que não aparentava ter a idade que a voz fanha lhe denunciava, ela era uma fusão bastante peculiar da bruxa Chlomaki de Wadanohara e o Grande Mar Azul e o Siralos, das tirinhas da Okegom, ela tinha cabelos brancos, orelhas de gato, um chapéu pontudo na cabeça, típico de bruxas, uma roupa cinzenta vitoriana, sua expressão ao mesmo tempo malandra e acolhedora, uma cauda abanava atrás dela.

Fiz o que ela disse, o cheiro ficou mais forte, era cheiro de orvalho, mel de abelha e amendoim, quase não se via paredes, pois estavam cobertas por troncos de árvores, espirais esculpidas nas madeiras, o teto tinha folhas e galhos trançados, orbes coloridos ondulavam no ar, como vagalumes, na mesa da bruxa tinham potes cheios de doces, que mais pareciam jóias pela forma que brilhavam.

— Senhora, o que é isso?

Os olhos da bruxa se estreitaram ao ver o doce que peguei, e seu sorriso... Eu não pude deduzir o que significava.

Ela agarrou meu antebraço com suas garras felpudas e quentinhas, sua cauda balançava de forma travessa, ela aproximou minha mão ao seu rosto e inalou a bolinha que mudava de cor, ficando amarela no processo.

— Aah! Esse é o doce da juventude, a fragrância que os jovens exalam, é tão pura! E o sabor, ah, o sabor... Impossível de descrever!

Disse a bruxa, fiquei curioso mas desconfiado, a bruxa tocou em meus ombros, me olhando nos olhos.

— Tudo bem, rapaz, pode comer, hoje é dia das bruxas — ou seja, meu dia! — então é por conta da casa! Não pense que eu sou a bruxa de João e Maria!

Bem... Ela me tratou tão bem, eu não queria desapontá-la e então joguei a bolinha na boca e mastiguei, o gosto, realmente, era impossível de descrever, era como se eu experimentasse todos os doces que comi durante a vida em um só.

De repente o lugar inteiro ficou maior — mas foi eu que diminuí. A bruxa deu pulinhos de alegria, rindo, ela pegou um espelho de mão e me mostrou.

— Eu... Voltei a ser criança?

— Sim! Agora aproveite esta noite porque hoje, a lojinha de doces da Gremília Valtover vai seguir viagem!

— Oxe, mas já? Você acabou de chegar.

— É aí que você se engana! Estou aqui desde o primeiro dia do mês!

— E como eu não te vi por aqui?

— Ah, quase ninguém sobe as escadas, só o pessoal da limpeza... Me sinto tão sozinha aqui...

Não sabia mais o que dizer, então me limitei a dizer "obrigado", ao que a bruxa retribuiu com um abraço e um beijo na testa (a primeira vez que uma mulher que não é da minha família me beija), seu abraço era quentinho e a roupa dela cheirava à detergente morango em pó.

— Até o próximo halloween, garoto!

— Até!

E a bruxa tirou de seu bolso um frasco igual ao cabo da adaga do tempo de Prince Of Persia, apertou um botão vermelho e toda a loja, incluindo as decorações, foram sugadas para dentro do frasco, ela guardou o objeto no bolso, foi até a janela e, antes de saltar, me lançou um último beijo com a pata branca, e então ela se transformou em um pássaro negro do tamanho de uma harppia brasileira e seguiu outros pássaros negros no céu estrelado.

A noite era um quadro de Van Gogh.

Ela deixou uma pena para trás.

Catei a pena, ela reluzia igual uma ametista escura.

Coloquei ela no bolso.

Desci as escadas saltitando, feliz com a regressão, quando cheguei na entrada o povo ainda tava lá, ninguém fora chamado, o ventilador continuava chiando e faiscando.

Saí do hospital e... Estranho, não era Halloween? Por que agora era São João?

Vi fogueiras, um bando de doido fazendo cosplay de caipira com monocelhas toscas pintadas com marcador (espero que não seja permanente), gente tacando bomba na rua, cães e gatos fugindo das explosões dos fogos de artifício para dentro do mato do terreno baldio.

Na praça tocava um sertanejo do tempo que eu dançava na escola quando era São João.

Cheguei em casa feliz.

Mas não tinha ninguém em casa, ela tava escura e vazia, me assustei quando vi pela janela um homem me stalkeando, era impossível ver o seu rosto, ele vestia um sobretudo escuríssimo, sua face era um borrão riscado à lápis e caneta preta, ele se escondia atrás do poste onde antes era a casa de Neodélia, hoje abandonada, fiação roubada, onde mendigos e bêbados fodem, cagam no chão e fumam maconha.

Fechei todas as cortinas e janelas da casa, e me fechei no quarto dos meus pais, foi então que esbarrei em algo no chão, acendi a luz e era um saco preto, aparentemente um corpo embalado por um serial killer, mas não era, eu sabia que não era.

Arrastei o saco para fora de casa e o soltei no terreno baldio.

Era tão pesado, mas depois me senti tão bem, todos os pesos que pesavam na minha consciência evaporaram, a noite não tinha fim.

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