Sim, Vossa Excelência


Ano: 20XX


Local: Oip IIX, X-X-X-X-X-X-X-X X-X X-X-X-X-X, X-X.


Meio-dia e meia.






Acordei em uma maca hospitalar, mas não estava em um hospital, ainda meio zonzo e a visão turva, com uma comoção no lugar onde eu estava, que se assemelhava a um necrotério misturado com um frigorífico.

— atenção à multidão lá fora, cabo Alícia, observe as câmeras para que nenhum manifestante invada nossa brigada.

Quem falava, ao que pareciam, eram militares, que estavam sentados com as colunas envergadas frente à uma fileira de computadores, que fizeram eu me sentir de volta na escola, quando matava as aulas na fria sala de informática.

— General, General! O espécime H acordou! Devemos sedá-lo novamente?

Uma mulher vestida em uma farda negra falava em uma posição ereta, a julgar pelo tom grosso a que se referiu ao general, ela estava tensa.

O tal general girou na cadeira, olhando-a nos olhos com uma expressão despreocupada, como se fosse a coisa mais banal do mundo, e em seguida me olhou.

— cabo Darla, não, em vez disso, leve-o para fora daqui, tenho as coordenadas de um local marcado para abrigá-lo.

Disse o general, pegando um mapa de papel e dando-o para a cabo Darla.

— não entendo, senhor, depois de tudo o que ele fez, nós o levaremos até o castelo do rei?

— isso não importa agora, ele ainda será útil para nossa operação.

— mas...

— fui claro?

A cabo Darla estava visivelmente insatisfeita com aquela "injustiça", seja lá qual fosse.

— entendido senhor!

Exclamou ela, batendo continência para o general.

— ótimo, cabo João Paulo, Cabo Wesley Santana e Sargento Vieira, acompanhem a cabo Darla na escolta do espécime H!

— sim, general!

Os três exclamaram ao mesmo tempo, batendo continência e vieram os quatro em minha direção, trazendo estranhas máscaras que julguei serem de gás.

— ponha isto na cara, é o Ocultor Sensorial Externo (O.S.E.).

— pra que isso, gente?

— sem objeções, você tem o direito de ficar calado, espécime H!

— espécime H? Mas meu nome é...... Ué, eu... Não lembro meu nome...

Me senti alheio ao ambiente que cercava-me, meus sentidos estavam dormentes, mas uma falsa sensação de movimento fazia meu cérebro girar.

— como eu disse, você tem o direito de ficar calado.

O sargento Vieira disse por fim, e colocou a máscara em meu rosto. No momento que pusera, uma sequência de códigos, números e letras desceu pelo visor negro, foi feita uma análise de retina e uma voz mecânica feminina falou dentro de minha cabeça:

— novo usuário detectado, iniciando modo de catalogação... Catalogação concluída, bem vindo, espécime H!

— hã?... Ok.

Disse eu, sem nada melhor à acrescentar.

Os outros puseram as mesmas máscaras que a minha e novamente a cachoeira de símbolos azuis binários descendo nos visores.

— venha conosco, nós o transportaremos até à localização estipulada! Me dê a mão!

A cabo Darla pegou a minha mão e me puxava para fora da maca, ajudando-me a levantar, acho que meu corpo ainda não tinha acordado completamente, eu bambeava, apoiando-me no ombro de Darla.

— por aqui, Espécime H.

Disse ela, me levando consigo, meu corpo acordava-se pouco a pouco.

Os três soldados na frente desparafusaram a tampa de um duto de ventilação retangular, grande o suficiente para caber um adulto em pé.

— iremos na frente, para proteger a retaguarda, cabo Darla!

— entendido.

E lá foram eles.

Nós os seguimos logo atrás.

O corredor metálico era tão polido que nos espelhava, mesmo na escuridão, ainda enxergávamos, nossos reflexos com a luz parca proveniente do fim do túnel.

Quando finalmente chegamos no final, o mesmo procedimento, a tampa caiu no chão fazendo um barulho danado, mas nenhum curioso viera ver.

Descemos um por um, até chegar a nossa vez, Darla me ajudou a descer, com cuidado.

Averiguamos a área, era a parte dos fundos do lugar onde estávamos, agora eu ouvia nitidamente a barulheira que era abafada dentro da brigada, gritos revoltados de MUITA gente, barulho de solas de sapatos pulando, o chão tremendo, então nós fomos andando, os soldados em volta de mim assumiram uma dinâmica que protegia-me dos quatro lados de onde poderiam me atacar, adentramos a multidão, espremendo-nos entre os revoltosos, que não nos percebiam não importasse o que fizéssemos, — é, realmente as máscaras ocultavam a percepção da nossa presença, visto o tanto de encontrões, empurrões, cotoveladas e pontapés que demos e levamos, eles não nos notaram em nenhum instante.

Com sofreguidão e o sol do meio-dia ardendo no couro, conseguimos atravessar a multidão e ultrapassá-la.

— olhe, lá está o carro que o general nos disse que estaria!

Disse o sargento Vieira, apontando o dedo para o conversível vermelho maçã nos trilhos do trem, que por algum milagre não fora estraçalhado pelo trem.

— ótimo.

Finalizou a cabo Darla.

Corremos até o veículo, pulando direto nos assentos, sem nos darmos o trabalho de abrir as portas, o Vieira tinha a chave e enfiou-a na ignição, girou-a e saímos do bairro Oip IIX, seguindo pelos trilhos do trem, ao decorrer dos trilhos desativados, as paredes cheias de plantas e musgo.

Dirigimos por horas tostando no sol quente, até que chegamos numa estrada desértica e árida, como aqueles desertos estadunidenses, não se via casas por perto, somente o asfalto rachado e os horizontes de areia amarelada, até que chegamos ao fim da estrada:

Um enorme castelo branco com listras azuis que lembrava um castelo da Disney.

Os portões do castelo foram abertos, e dele saíram figuras cartunescas e animalescas, que vieram nos receber.

Um pinguim altivo com uma coroa na cabeça falou afavelmente com a gente, ele tinha uma voz grossa e, entretanto, calma e agradável de ouvir, como o dublador do Stolas do Fandub Xtreme:

— então este é o espécime H de que vocês tanto falaram?

— sim, rei Pinguim.

A Darla respondeu.

— entendo, e o General Zoleima, não veio com vocês?

— não, senhor, ele ficou lá na brigada, apaziguando os ânimos da manifestação.

— entendo, venham, entrem, gostariam de tomar uma xícara de chá de Jasmim? Está delicioso!

— não, obrigado, senhor.

— mas nós aceitamos.

Disseram os três rapazes militares, com seus uniformes negros (como eles aguentavam o calor que fazia? É um mistério).

— e você, filho?

O rei se dirigiu a mim.

— eu?

— sim.

— hum... Teria Nescau?

Os quatro oficiais riram de minha pergunta, até a cabo Darla, que permanecera tão séria nas últimas horas, um sorriso alargava suas feições, por fim, ela falou rispidamente, mas ainda risonha.

— não, isso aqui não é um fast-food, camarada, não tem cardápio aqui!

— não, tudo bem, senhorita Darla, nós temos grandes sacos de achocolatado em pó na despensa!

Disse o rei.

— oba!

Me alegrei por ouvir aquilo, mas a cabo Darla fez uma careta de insatisfação.

— venham, entrem.

Ele nos acompanhou, chamou seus serviçais, que nos observavam na entrada do castelo, com sorrisos amigáveis.

— Smiling Critters, venham cá, tomem as mãos de nossos convidados e os levem para conhecer nosso castelo!

— sim, vossa majestade!

Disseram os oito em uníssono, e cada qual foi se apossando reverentemente as nossas mãos e beijando-as, como se fôssemos dançar no baile da Cinderela.

Mas como eram oito para cinco pessoas, eles formaram duplas e nos acompanharam, nos apresentando aos cômodos reais.

As criaturas sorridentes foram respeitosos com a gente.

Com excessão de um.

O Dogday.

— aí, seu palhaço, o que pensa que tá fazendo?

Disse o cão alaranjado com um colar em formato de sol, com os braços cruzados e sorrindo maliciosamente pra mim.

— Dogday! Não desrespeite nosso súdito!

Exclamou a Bobby Bearhug, uma amável ursa vermelha com um colar em formato de coração.

— vai cuidar da tua vida, Maria Colméia!

Ele pigarreou e deu uma risadinha de escárnio, deixando a ursa com a testa enrugada e carrancuda.

— você vai se arrepender disso quando o rei souber!

— o que tu vai fazer? Me dedurar? Não sabia que tínhamos uma dedo-duro em nosso grupo, que vergonha, Bobby!

— humpf!

A ursa bufou, levantou a saia do seu vestido em sinal de respeito e se despediu da gente.

— qual é o seu problema, cara?

— meu problema? Sério, H? O problema aqui é você, seu assassino!

Eu não podia acreditar naquela acusação sem sentido que ele me acusava, fiquei encabulado e puto.

— isso é uma acusação séria, que provas você tem que eu cometi esse crime?

— prova? Tu tá me achando com cara de Sherlock Holmes pra adivinhar?

— vai se fuder, seu vira-lata sarnento!

— não foi o que a sua mãe disse quando eu-

Não deixei ele terminar e dei um soco em seu focinho, que fez um barulho de patinho de borracha sendo espremido.

Mas ele continuou rindo, limpou o sangue da boca felpuda e ainda debochou.

— espero que o diabo tenha uma vaga especial no colo dele pra você, haha!

E saiu correndo pelo corredor, quase escorregando no extenso tapete no chão, mas continuou a correr.

Nós ficamos no castelo por algumas semanas.

Os nossos dias foram repletos de diversão com os Smiling Critters, e de chateações do Dogday, fazendo brincadeiras de mal gosto comigo (uma vez ele me acordou apagando um fósforo na ponta do meu nariz, e outra quando ele enfiou um balde de madeira na minha cabeça e ele não saía de jeito nenhum, o rei teve de molhar o balde com mel para sair, minha cabeça ficou toda lambuzada de mel, passei uma semana inteira lavando minha cabeça pra tirar o cheiro, mas o cheiro doce enjoativo de mel não saiu do meu cabelo, e outras presepadas do Doguinho levado...).

Hoje é o nosso último dia aqui.

— e então, rolha de poço, já vai indo? Sem nem se despedir?

— claro que me despedi, me despedi dos outros, menos de você, seu chato.

— fresco!

— não fui eu que fiquei um mês inteiro quase matando um súdito real.

— disponha.

Houve uma pausa desconfortável entre nós dois.

— já vou indo, até nunca mais.

— espera... Não, esquece.

Achava que ele ia fazer mais uma piadinha, mas não disse nada, ele parecia aflito.

Não dei bola para isso e fomos cear o banquete real, nos fartamos todos, eu comi uma coxa enorme, maior que o meu braço, só ela fez a minha barriga estufar, mas eu ainda aproveitei para comer mais, só parei quando a barriga estava prestes a explodir.

— epa, alguém aqui tá com fome, viu?

Disse a Cabo Darla, sorrindo outra vez, eu gosto do sorriso dela.

— os preparativos para a ida já estão prontos?

O rei Pinguim perguntou, comendo um grande pedaço de bolo de chocolate com cobertura de morango.

— sim, senhor, partiremos depois da ceia.

Disse o vieira, roendo uma costela de dragão.

— mas vocês não vão nem ficar para a festa do pijama?

— não, senhor, e, aliás, agradecemos por ter nos ajudado, obrigado!

Disse a cabo Darla.

— e pela comida e pelo Nescau também!

Disse eu, levando um beliscão de Darla no ombro, que nem aquela cena do Seu Madruga beliscando o Quico, e eu disse encher a bochechas e gritar "MAMÃE!", mas achei melhor deixar quieto.

E assim seguiu a nossa refeição, entre risos e calmaria.

Notei que o Dogday nos espiava escondido atrás das cortinas, da janela, pelo canto do olho esquerdo.

Mas não me importei.


Finalmente terminamos a ceia, tiramos um tempinho para a digestão, descansando cada qual deitados no chão.

Tempo depois, quando digerimos tudo, o rei nos acompanhou até a garagem subterrânea, onde estava nosso conversível, os portões foram abertos e nós nos despedimos do rei e dos Smiling Critters.

— vocês podem voltar aqui quando quiserem, sempre estaremos de portas abertas!

— mais uma vez, obrigado por nos receber, rei Pinguim! Claro que voltaremos assim que pudermos!

— fico feliz em ouvir isso, senhorita Darla!

— senhor rei... Eu adorei esse lugar, eu gosto de vocês, eu com certeza voltaria aqui direto!

O que eu disse deixou o rei e os outros Smiling Critters corados, eu procurei o Dogday com os olhos, na turma, mas não o encontrei.

— ei, cadê o Dogday?

— ah, sim, aquele cachorrinho não quis vir despedir-se de vocês.

— entendi, Bobby, por favor, diz pra ele que eu mandei um beijo na bunda dele por mim, tá bom?

A piadinha que eu fiz deixou a ursa levemente desconcertada, escondendo a boca com a pata, com as pupilas brancas em seus olhos negros viradas pra baixo.

— sim...!

Disse ela, por fim e se retirou, acho que foi dizer isso pro cachorro.

— adeus, pessoal!

Dissemos ao mesmo tempo e subimos a rampa da garagem em direção à luz do sol que resplandecia lá fora, no deserto.



"Onde está aquele cão?", pensou o rei consigo mesmo, andando alvoroçado pelo castelo, depois de fechar a garagem.

Até que ele viu o Dogday sentado no banco da janela da terceira torre, refletindo enquanto olhava o conversível do espécime H e seus amigos indo embora, com um olhar vago.

— Dogday!

O chamado do grande rei pinguim assustou o cão, que despencou da janela no chão, levantou-se desajeitadamente.

— sim, meu rei!

— por que você desrespeitou nossos súditos? Que bicho te mordeu?

— eu... Eu...

O cão tentava achar alguma desculpa boa para dar ao rei, mas nada vinha à sua mente, ele engasgou-se com a própria saliva.

— você o quê?

— eu, não sei...

— como não sabe?

— não sei, senhor...

— venha comigo, para a câmara de criogenia!

A simples menção à câmara deixou o cachorro agitado e tenso.

— não, senhor! Por favor, NÃO!

— venha!

— não, eu não quero ser congelado!

— não tema, pois você não ficará anos congelado, apenas uma semana, para que medite sobre seu comportamento, sem perturbações!

— ah... Se é assim, então... Aceito.

O cão hesitou por um segundo, mas por fim seguiu o rei, segurando a asa pontuda do pinguim, eles subiram em uma escada caracol e seguiram por um corredor escuro de concreto, até chegarem na câmara, que mais parecia uma sala de tortura medieval, muitos tubos de ensaio que lembravam caixões cheios d'água.

O rei levou o Dogday para um dos tubos, deitando o cão dentro dele, com cuidado.

— está confortável?

— sim, meu rei...

— ótimo, agora durma, não se preocupe com mais nada!

Disse o rei com tal afabilidade que desarmaria o coração de qualquer um.

Mas quando o rei ia se retirando, o Dogday agarrou a ponta de sua asa.

— eu... Estou com medo... Senhor...

Havia uma tristeza aparente no focinho do cachorro.

Mas o pinguim apenas sorriu e com a outra asa, tocou a pata do Dogday, e falou-lhe com a maior gentileza.

— tudo bem, Dogday, você logo acordará de seu sono, nem vai perceber que se passou uma semana!

Dizendo isso, o Dogday soltou a asa do pinguim, levando sua pata felpuda até o ombro, e depois acomodando-se outra vez.

O rei fechou a tampa do tubo, e se dirigiu até um computador, digitou uma senha e depois iniciou o congelamento da cápsula onde o Dogday estava, que congelava com lentidão.

Enquanto era congelado, Dogday cantava uma música linda mas que estava carregada de tristeza e aflição, até que finalmente dormiu, o congelamento terminou, mas, quando o rei saiu, a música que o Dogday cantara continuou ressoando no aposento.

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