O Abrigo Que Gemia
O Abrigo Que Gemia
12 de julho de 203X
12:12
Parque S. Geraldo
As nuvens no céu tinham a forma de unicórnios e cavalos-marinhos. Meu avô está comprando sorvete com as minhas primas e a minha irmã.
Já deu a hora dos mototaxistas almoçarem.
No rádio do meu avô tá tocando Luiz Gonzaga, mas é interrompido por uma transmissão que falha.
Peguei o rádio e dei uns tabefes nela pra ver se pegava, mudei a direção da antena, e nada de funcionar, somente uma frase saiu sem falhas:
— Aviões... Vindos de... Eles... Inimigos...
E depois voltou a falhar.
— Que bosta de rádio.
Meu avô chegou e me deu um dindim sabor céu azul.
— Obrigado, vô.
— Aproveita.
Disse ele.
E se sentou no banco, que estava morninho, apesar de estar sob a sombra da árvore, o dia estava quente demais e o dindim começava a amolecer.
O vento sacudia as árvores da praça, as folhas dançavam serenamente.
Até que as pessoas aglomeraram-se, olhando e apontando para o céu.
Fomos ver o que era, mas as árvores atrapalhavam a vista.
Chegamos ao meio da rua e vimos uma revoada de aviões de guerra. De longe se podia ver o aço cromado, a lataria das aeronaves.
— De onde será que vieram?
Perguntou um dos mototaxistas, filmando com seu celular.
Assim que os aviões chegaram, começou a chover bombas, a praça inteira foi reduzida a escombros, carros eram incendiados, uma árvore frondosa foi partida ao meio.
A correria não acabava mais.
Corríamos desesperados, a procura de um esconderijo, dávamos encontrões, desencontrávamos, tropecei e meu avô me ajudou a levantar, minhas primas e irmã estavam todas agarradas em meu avô.
Até avistarmos alguém no terreno baldio bem ao lado do poliesportivo, ele ergueu uma escopeta na mão como se hasteasse uma bandeira.
— Aqui! Escondam-se aqui!
Berrava ele (ou ela, não era possível distinguir de longe).
Foi um atropelo atrás de atropelo, o portão de grades foi esmagado pela multidão alvoroçada.
Descemos o que parecia ser um porão, uns segurando as mãos dos outros, como uma fila de elefantes em migração.
Levamos uma hora para descer as escadas, que abandonavam o concreto e viravam pura terra batida alaranjada, e chegamos ao fundo daquele abrigo, era estreito. Foram mais quatro horas decorridas em andar para a frente.
O teto assemelhava-se a uma espinha dorsal, parecia que adentrávamos um enorme peixe que nos engolira de uma vez, e o chão se tornou uma espécie de... de carne. Era macio e víscido, e o lugar fedia a uma garganta atulhada de carne em processo de digestão.
Finalmente chegamos ao final do abrigo, a pessoa que trouxe-nos para cá desapareceu, era o que era trazido de boca a boca pelos da frente.
O lugar tinha dezenas de metros quadrados, das paredes escorria chorume de esgoto, eram esverdeadas e cheias de musgo, e o chão era um raso de imundícies e dejetos, lixo para todo o lado.
Vimos duas escadas na frente que levavam para dois túneis redondinhos e ainda mais estreitos que o de onde vínhamos.
O lugar inteiro tremia com o bombardeio da superfície, cujos barulhos eram abafados pela profundidade de cá.
— Abram espaço, abram espaço!
Gritaram dois homens que vinham do fundão.
— Fiquem aqui, vamos ver até onde vão esses túneis.
Disse um dos homens, um cara loiro, de jeans e camisa cinzenta, e o outro era moreno, de camisa branca, com um crucifixo no pescoço e também de calça jeans.
Eles escalaram as escadas, e a cada escalada, gemidos permeavam o ar, bafos eram expelidos dos bueiros laterais donde escorria aquele chorume.
Eles entraram nos túneis, e de repente, no momento em que entraram os túneis criaram dentes e se fecharam nos dois, mastigando-os, e arrotos foram ouvidos, ruídos de mastigação e digestão, eles desapareceram lá dentro e do fundo dos túneis via-se um clarão de fogo e lava começou a ser vomitada deles.
As pessoas gritaram e correram em círculos, tentando escalar as paredes imundas e caindo na lama.
"Socorro!"
"Nos ajude!"
Teve três beatas que prostraram-se de joelhos e começaram a rezar; em vão, uma vez que as paredes começaram a se fechar lentamente.
Eu, meu avô, minhas primas e irmã voltamos pelo mesmo caminho que entramos, às carreiras.
E eu vi, por uma imensa rachadura, um vazio negro, e no meio dele, um imenso coração dourado, pulsando insanamente, como se tivesse uma borboleta dentro, asfixiando-se e debatendo-se para sair.
— Vem, Hugo! Ligeiro, temos que sair daqui!
Disse meu avô, me puxando pela mão.
As meninas foram na frente e nós atrás.
Os gritos atrás de nós foram diminuindo, diminuindo, até não ouvirmos mais.
Demoramos o mesmo tanto para sair de lá, as paredes quase nos esmagaram.
Só depois que saímos vi que as paredes tinham bocas com dentes afiadíssimos e amarelados, e se fecharam completamente, a entrada do bunker se tornou um chão de mato morto.
Nos deparamos com uma zona de guerra, a cidade quase toda devastada, a farmácia puro escombros, árvores partidas ao meio, pegando fogo, os campos de futebol destroçados, carros em chamas, gente gritando e correndo.
E nada dos aviões irem embora, eles voavam em círculos, como urubus vendo animal morto.
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