O Bunker Que Gemia
Era uma manhã doce e pacífica e ensolarada, nós (eu, vovô, minha irmã e minhas duas primas) tomávamos sorvete na praça, tudo correndo bem, ¹*depois dos dois tsunamis que ocorreram dias atrás.
Quando nós avistamos aviões militares no céu, de origem incerta, o sol ofuscava nossa visão nos impossibilitando de ver os símbolos deles e identificar a procedência, quase no momento que os avistamos, bombas começaram a cair na rua, na praça e nas casas ao redor, o que antes era um passeio agradável e feliz subitamente virara um pesadelo.
As pessoas corriam desesperadas para todos os lados que podiam, como formigas que foram amedrontadas por um enorme predador esmagando seu formigueiro, até que ouvimos alguém gritando "AQUI, AQUI, AQUI!", verificamos a fonte daqueles gritos e era alguém nos chamando para um terreno baldio e murado do lado da praça, do outro lado da rua, seguimos aquele estranho sem pensar duas vezes, outras pessoas nos seguiram, em pouco tempo nos tornamos uma multidão de desesperados, o estranho abriu uma porta dupla no chão que lembrava aqueles porões americanos, destrancou o cadeado e descemos, sem sabermos aonde daria.
Seguimos nosso "salvador" naquele corredor esquisito, que hora mostrava um aspecto desértico e de terra batida, lamaçal e alaranjada, hora parecia que adentrávamos o interior de um peixe colossal, com a espinha no teto.
O bunker sacudia, mal ficávamos em pé, mas não ouvíamos mais o barulho das bombas (o que era estranho, pois este bunker não parecia tão fundo assim), um barulho bizarro ecoava no lugar, era semelhante a um gemido, ou mesmo a órgãos se entrelaçando, comida descendo do pescoço ao estômago.
Não demos importância, e continuamos nosso trajeto.
A medida que caminhávamos, os tremeliques e os "gemidos" aumentavam...
Até chegarmos ao final do abrigo.
Era uma pequena sala, quadrada e úmida, o chão molhado de barro, as paredes desbotadas e escorrendo, a lâmpada balançando no teto.
E os gemidos não paravam.
Até que a pessoa que nos trouxe para lá desapareceu, e nos vimos sozinhos à mercê daquele lugar singular e inexplicável.
Porém, todavia, alguns homens notaram dois buracos redondos na parede a nossa frente, grandes o suficiente para caberem adultos, pareciam ser dutos de ventilação.
Foi quando eles nos avisaram:
"Vocês se afastem que nós verificaremos esses dutos".
E eles foram em direção aos buracos nas paredes, subiram as escadas, que esavam tão enferrujadas que só de inalar seu odor oxidado já seria o bastante para morrer de tétano, e entraram nos buracos, depois disso nunca mais os vimos.
Dos buracos veio um brilho avermelhado que premeditava um incêndio lá dentro, e o ambiente chacoalhou ainda mais, barulhos perturbadores de presas de lacraias triturando carne e um som convulsivo de digestão ecoaram por aquele abrigo, e nos desesperamos outra vez.
Eu comecei a me perguntar se lá fora era menos pior do que aqui dentro.
Eu e minha família escapamos dali, pelo mesmo caminho que viemos, eu pude ver, não sei por onde, por qual brecha, um coração dourado batendo e se contorcendo como um casulo sendo inalado e amassado por dentro pela borboleta dentro dele.
*¹uma vez eu tive um pesadelo em que dois tsunamis afogaram a cidade inteira, mas não morríamos, isso ficará para outro post.
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