O Cinema Infinito
O Cinema Infinito
Ano: 9.999
Século: C (100).
Localização: Espaço sideral (Galáxia Olho de Deus) e terra.
Eu fugia desesperado, descendo por uma escada, perseguido por alienígenas altos e cinzentos, cabeçudinhos, magrelos, como aqueles clichês avistamentos de extraterrestres da internet.
Eles trajavam roupas do congresso espacial da união dos planetas (C.E.U.P.), munidos de pistolas de raios em formatos estranhos, que lembravam jarros de museus de antiguidades, com o pescoço fino mas que ia arredondando e aumentando ao chegar à "boca", só que a parte da "boca" eram cristais esmeraldinos que disparavam raios retos em minha direção.
— alto lá, fugitivo número 26! Você será preso por atrapalhar a sessão da nona lua!
Disse um dos aliens em meu encalço.
Mas eu não dei ouvidos a nenhum deles, continuei minha corrida desesperada, pois se eu recebesse algum daqueles tiros eu seria pulverizado, ou se eles me pegassem seria encerrado em uma prisão cúbica com um efeito mental alucinógeno psicodélico similar aos efeitos do LSD.
O cinema em que eu estava era um gigantesco complexo de salas de cinema à céu aberto, sem teto e sem paredes, se visto de longe, parecia um emaranhado de fitas K7 suspenso no universo, os telões constantemente brancos exibiam filmes no cérebro das múltiplas espécies extraterrestres, sentadas em cadeiras presas no chão de grades, parcialmente aberto, não faço a mínima idéia de como eles não tropeçavam para o infinito e além.
Porém, cheguei a uma parte fora das salas, acredito ser a parte comercial, onde se compravam os alimentos, mas tudo estava fechado ou fechando tão logo me avistassem correndo dos guardas.
Da ala comercial desci outra ladeira de escadas e alcancei um estacionamento de naves espaciais, furtei uma nave em formato de carro terrestre, vermelha como uma maçã e fugi do cinema direto para a terra, apertei um botão cinza que ativou a velocidade da luz e cheguei em instantes à terra, fiz um pouso forçado dentro do terreno de juremas depois do muro que dividia o conjunto da floresta lá fora, arrebentando o muro já muito carcomido, esburacado e vandalizado, pulei da nave já dentro do meu condomínio.
Fui para o campo de futebol na praça, ele estava mais rachado do quê nunca, imundo e encardido, repleto de pichações e jovens fumando, uns acocorados e outros em pé, menos jogando bola, entrei no campinho para tentar me misturar entre a gandaia e despistar os aliens policiais.
Eu joguei conversa fora com uma linda morena, mas ela era maloqueira, fumando um cigarro eletrônico que ora apitava e brilhava, ela falava que nem um cracudo zé droguinha com dislexia.
— quié, mané? Tá devendo à agiota? Hahaha...
— não, Jamile, eu tô... Não, deixa pra lá, tem um Danone aí?
— foi mal, eu só tenho Toddynho, serve?
— serve.
Peguei a caixinha, tirei o canudo e furei o buraquinho, comecei a sugar o achocolatado industrializado que nem um vampiro.
E conversa vai, conversa vem, enquanto falava com a Jamile, uma luz verde azulada bateu na minha cara, lavando as rachaduras do campinho de luz, um disco voador estava bem acima de nossas cabeças, trazendo um ventinho para nós, mas os jovens maloqueiros ao meu redor não mexeram um centímetro de suas posições, eles pararam por curtos segundos para fitar o disco no céu e depois continuaram suas conversas frívolas, sem dar a mínima importância ao evento que levaria milhões a óbito por infarto séculos antes.
— hahaha, parece que o disfarce não colou, maninho, passar bem!
Disse Jamile, olhando para mim, risonha, e depois para o disco, o sorriso dela me lembrava do ator que interpretava o Negan de The Walking Dead e o Comediante de Watchmen.
— adeus!
Gritei eu e reiniciei minha correria, pulando do campinho por um rombo no arame, espetei a sola dos meus chinelos em carrapichos, mas continuei correndo, raspando as solas no asfalto.
A velocidade das minhas pernas triplicaram e naquele instante eu já estava no centro da cidade, eu instantaneamente virei um velocista de quadrinhos, conseguindo despistar o disco voador, estava agora nas ruas cheias e iluminadas do centro, eu enxergava aquelas luzes desbotadas como bolinhas, quando a gente vê as luzes de muito longe.
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